A Raízen, uma das maiores empresas do segmento sucroalcooleiro e de bioenergia do Brasil, quer também ser referência em inovação tecnológica no agronegócio. Dessa estratégia, surgiu o Pulse, disseminador (hub) de inovação da companhia, que visa oxigenar novas ideias e fomentar o desenvolvimento da economia nacional.

Parcerias com investidores estrangeiros, claro, são mais do que bem-vindas. Por isso, o Pulse participou, no começo de outubro, da quarta edição do Corporate Venture in Brasil. O evento organizado pela Apex-Brasil em São Paulo reuniu investidores, startups e empresários brasileiros em busca de parcerias que acelerem o desenvolvimento de ideias inovadoras ligadas a diversos setores, dentre os quais o agritech – também conhecido como tecnologia no agronegócio.

Trabalho a quatro mãos

Durante o evento, Guilherme Dal Lago, coordenador de inovação da Raízen, conversou com o Blog da Apex-Brasil sobre a importância da inovação no ecossistema de investimentos estrangeiros no segmento de agronegócios no Brasil. “Muitas startups têm o produto quase finalizado, mas sempre precisa algum tipo de personalização para ficar redondo. É um trabalho a quatro mãos que fazemos, para que eles possam virar fornecedores e a Raízen possa incorporar uma tecnologia de ponta nos seus negócios”, explica.

Confira os principais trechos dessa conversa:

 

De onde surgiu a ideia de criar o Pulse?

A Raízen produz etanol, açúcar e bioenergia. Somos a única empresa que faz tudo desde o campo até o posto de combustível – atuamos em 6.400 postos Shell. A Raízen, surgiu em 2011, e é uma joint-venture entre a Shell e a Cosan . O Pulse é um disseminador (hub) de inovação, uma importante engrenagem na estrutura de inovação da Raízen e vem viabilizando a oxigenação de novas ideias e práticas que enriquecem o agronegócio brasileiro e demais frentes de negócios. O hub é um espaço de encontro e circulação de principais executivos do setor, grandes empresas e formadores de opinião. Buscamos atrair esse fluxo para o nosso ecossistema, em Piracicaba (SP), e contribuir para o ambiente de tecnologia em agronegócios (agritech) como um todo no Brasil e no mundo.

Mas é importante destacar que o Pulse está hoje fora da Raízen. Está do outro lado da rua: perto o suficiente para o pessoal frequentar bastante, mas com estrutura própria. É outro prédio, outro crachá, tudo muda.

Como se dá esse processo de incorporação da inovação?

O papel do Pulse é o seguinte: a gente tem que profissionalizar e lapidar o produto final da startup e amaciar um pouco o lado da Raízen, mudar a forma como eles pensam o trabalho com uma startup.

Muitas startups chegam com o produto quase finalizado, mas ainda precisam de uma ou outra adaptação para que este fique do jeito que a Raízen precisa, por exemplo. E é normal a empresa querer uma firula ou outra. O grande desafio é escalar esse desenvolvimento final sem ficar perdendo muito tempo. Primeiro fazemos um piloto e vemos se vai dar certo. Dando certo, a gente homologa para que a startup possa virar um fornecedor e toca a vida. Então, por mais que não façamos o investimento diretamente, damos um contrato comercial para eles ganharem tração e músculo.

Pode citar algumas ideias que foram incorporadas pela Raízen?

Claro. Teve a Aimirim, uma startup que faz inteligência artificial na queima das caldeiras e consegue gerar o mesmo poder calorífero queimando 95% da massa. Ou seja, você tem uma economia de 5% de biomassa (bagaço), o que é algo enorme ao longo de um ano. Já implementamos isso em duas usinas e temos potencial para outras 24.

Outra ideia que incorporamos é a Perfect Flight, que basicamente mede onde você está aplicando o defensivo agrícola do seu avião. A tecnologia mapeia o quanto você aplicou o defensivo e verifica se você não colocou nada fora da área delimitada, como rios, mananciais, etc. Isso nos protege de eventuais litígios.

Tem também outra solução que tira retratos das áreas produtivas. A partir de uma foto de uma câmera VGA, identificamos o que é o verde saudável, o que é o verde carente de nutrientes e o que é o tom amarelado que está contaminado com alguma praga. Esse produto é bem interessante e já foi validado no MIT (Massachussets Institute of Technology) e em Tel-aviv.

Guilherme Dal Lago acredita que o Brasil tem um diferencial de tecnologia no agronegócio




 

Quantas startups trabalham com vocês atualmente?

Hoje temos 15 startups no Pulse. Além de 11 projetos pilotos rodando com a Raízen e quatro em vias de virar contratos definitivos e fornecedores. Essa é a nossa métrica: formar empreendedores capazes de atender grandes empresas, com todo o suporte, mentoria e aceleração.

Como foi seu contato com a Apex-Brasil?

Quando entrei na Raízen, há dois anos, eu tinha a missão de fazer os programas internos de inovação e falar com todos os atores do ecossistema brasileiro: venture capitals, aceleradoras e startups. Aí cheguei até a Apex-Brasil. Sempre que tem Corporate Venture, eu venho e chamo o pessoal da Raízen Ventures também para comparecer, porque acho importante estarmos juntos nessa caminhada.

E no Corporate Venture vocês buscaram investidores e startups também?

Olhamos para a cadeia produtiva do agronegócio como um todo. Temos uma startup de pecuária; temos outra em parceria com a Ericsson, Telefonica e Vivo para fazer uma chamada de iOT Rural (conectividade); e queremos também entrar com área de indústria para ajudar a parte de operações agrícolas e logística.

A questão é a gente identificar uma área que tem uma dor mais específica, pegar o empreendedor e tenta estimular um projeto piloto. Tendo bons empreendedores, bons eventos são uma consequência de bons investidores. Então, estamos mais que abertos a receber novos investidores e venture capitals, para investir, visitar nossa empresa ou mesmo recomendar startups.

Por fim, como está o ecossistema de inovação em tecnologia de agronegócio no Brasil?

O Brasil tem um diferencial em tecnologia para agronegócio (agritech): temos o clima tropical que faz empresas virem aqui para testar seus produtos nesse ambiente. Temos que aproveitar esse potencial e trazer mais gente para o Pulse e outros disseminadores (hubs) aqui no Brasil. É um potencial que a gente não pode desperdiçar.

 

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