Durante muito tempo, a compostagem, técnica de transformar matéria orgânica em adubo por meio de minhocas, foi associada a quem vive em casa, longe da cidade e adota um estilo de vida “alternativo”. Mas, graças a uma empresa paulista, a Morada da Floresta, a prática passou a ser vista como uma maneira viável e sustentável dos grandes centros urbanos lidarem com seus resíduos orgânicos. 

A Morada da Floresta é uma empresa pouco convencional. Nasceu da cabeça de Claudio Spínola, um Brasiliense que chegou a São Paulo nos anos 90 e cursou Artes Plásticas na USP. A cidade, no entanto, foi demais para ele, que sentiu o baque de viver em uma megalópole e optou por ter uma vida mais simples, longe do universo da competição e mais próximo da natureza e da alimentação saudável, quando iniciou a prática da compostagem, plantio e separação dos resíduos na república onde morava.  

Cláudio não sabia, mas aquele passo em direção à alimentação natural, à permacultura e à compostagem foi o início de um processo que, ironicamente, o tornaria empresário e agente importante das políticas públicas para resíduos sólidos. Hoje o empreendedor segue com sua conversa mansa e seu ideal de vida alternativa, mas agora pensando em como levar o seu negócio para outras cidades e países. Para isso, ele participou de um ciclo do ICV Global, parceria a Apex-Brasil e o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas. E assim é mais um ilustre representante da campanha Be Brasil, que promove um Brasil sustentável, inovador e criativo no mundo dos negócios no exterior. Confira a entrevista!

Como você começou a se envolver com sustentabilidade?
Eu sou de Brasília. Morei lá até os 16 anos. Naquela época, a cidade tinha um clima mais bucólico. Apesar de naquele tempo eu me achar meio punk, gostava dessa coisa da cidade arborizada e dos ambientes lúdicos. Aí me mudei para São Paulo, em Higienópolis, uma região já bem mais urbanizada. Tive um choque com a cidade, os carros e os prédios. Isso tudo mudou minha relação com a natureza. Fiquei preocupado com esse modo de vida e acabei me envolvendo com a permacultura, que traz maneiras diferentes de interação do ser humano com o meio, mais saudável e sustentável.

E como foi isso?
Comecei com o básico, separando resíduos orgânicos, fazendo consumo consciente. Com o tempo, fui me envolvendo mais com o assunto. Eu fazia isso em minha casa, que havia se tornado uma comunidade de estudantes comprometidos com ecologia, vegetarianismo, etc.

Quando isso começou a virar negócio?
A casa tinha um sistema comunitário , no qual todos os moradores faziam utilização de tecnologias ambientais. Em 2007, para gerara renda e investir nas reformas da casa , passamos a administrar cursos. Foi nessa época que substitui a compostagem termofílica pela compostagem com as minhocas californianas.  Acabei adaptando a técnica para receber os resíduos da casa, que já se chamava Morada da Floresta. Muita gente que ia fazer os cursos na Morada pedia para eu fazer o sistema para elas. Começou com pequenas encomendas até o ponto em que iniciamos as vendas das composteiras. Isso foi em 2009. Nessa época também começamos a fazer e vender absorventes e as fraldas ecológicas. Hoje a Morada da Floresta oferece diferentes sistemas de compostagem, roupas, bolsas impermeáveis e capa para bebês e ainda possui um restaurante.

E como você se tornou um ator nas políticas públicas de resíduo de São Paulo?
Quando comecei a vender as composteiras, passei a recolher mais resíduos orgânicos   para estimular a reprodução das minhocas. Descobri que, para formalizar esse serviço eu teria que ter uma estrutura de transporte e que para isso era necessári autorização da prefeitura, licenciamento ambiental, etc. Foi quando entendi a complexidade que era trabalhar com compostagem em uma cidade como São Paulo. Eram muitas dificuldades e passei a procurar interlocução junto à prefeitura.

E essa questão tem um impacto grande no cotidiano, certo?
Se pensarmos que os municípios gastam de 5% a 7% do orçamento para fazer a gestão dos resíduos, entendemos a economia e o bem que faríamos ao meio ambiente se parte desse material fosse compostado no próprio local de geração. E se pensarmos que metade dos resíduos produzidos no Brasil é orgânico, vemos que existe um recurso que está sendo completamente desperdiçado e que isso pode ser mudado .

E o que saiu desse seu contato com a Prefeitura?
Em 2012, organizamos um seminário com vários órgãos da Prefeitura para discutir o assunto na Câmara Municipal. O resultado foi a estipulação de algumas metas de compostagem para São Paulo. Com a mudança de gestão, sugerimos as metas para a prefeitura, que assumiu a meta de compostar os resíduos orgânicos das feiras de rua, o que já foi ótimo. A partir daí, contribuímos com a elaboração do PGIRS e fomos convidados para elaborar um projeto de estímulo à prática da compostagem doméstica na cidade. 

Imagino que a empresa sentiu o impacto positivo com todas essas mobilizações. 
Sim! Em 2014, criamos o projeto Composta São Paulo, em parceria com a Prefeitura de São Paulo, e distribuímos 2 mil composteiras entre mais de 10 mil residências inscritas. Foi o maior projeto do gênero na América Latina. No ano seguinte, a prefeitura encomendou mais 10 mil peças. E aí eu tive que pensar em larga escala e, consequentemente, na mudança do produto.

Foi isso que o levou ao ICV Global?
Sim! Havíamos criado a Humi, um modelo de composteira inovador na funcionalidade e no material. Vi uma chamada para o Guia de Inovação e Sustentabilidade da GVces e acabei sendo uma das empresas escolhidas. Foi aí que tive contato com o ICV Global.

E o que o ICV mudou na sua empresa?
O ICV abriu todo um campo a ser explorado. Não sabíamos de nada sobre exportação. Uma coisa que é importante é adquirir a capacidade de olhar e se sentir capaz de fazer. Essa coisa da coragem de ir para frente. Esse processo é muito rico.

E você segue se preparando para esse projeto de exportação
Sim! Agora estamos participando do projeto Design Export da Apex-Brasil. Para chegar aqui, tivemos que correr. Fazer o site em inglês, espanhol, atender todas os pré-requisitos para participar da oficina. Nesse programa estamos desenvolvendo uma horta vertical com sistema de compostagem embutida. 

E os planos para o futuro?
E eu acho que posso trabalhar mercados que já são conscientes sobre a sustentabilidade e têm poder aquisitivo, mas também quero trabalhar nossos produtos  em países mais necessitados, em lugares em que minha tecnologia vai servir como soluções locais de resíduos e atender uma necessidade. 

Mais alguma coisa para acrescentar?
(Pausa) Eu queria participar do ICV Global novamente. Durante o projeto, o produto ainda não estava pronto. Agora, com o produto em mãos estamos preparados para iniciar as exportações. 

 

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