Uma das áreas de atuação mais importantes da Apex-Brasil é a atração de investimentos. A Agência apoia um conjunto de iniciativas que conectam investidores a empreendedores afim de fortalecer o crescimento das empresas brasileiras de diversos setores. São ações como o Corporate Venture, que fomenta o desenvolvimento das atividades de empreendedorismo corporativo.

Foi em uma dessas atividades que, recentemente, a Myleus, uma empresa de biotecnologia de Minas Gerais, conseguiu captar recursos de um fundo para o seu negócio. Com o aporte, a startup poderá ampliar sua capacidade produtiva e iniciar os primeiros passos para atuar no mercado externo.

O Blog da Apex-Brasil aproveitou a visita de Marcela Drumond, CEO da Myleus, à sede da Agência para trocar uma palavrinha sobre a empresa, as peculiaridades do setor de tecnologia na hora de atrair investimentos e as dificuldades de uma gestora em um universo majoritariamente masculino. Confira!

Como surgiu a Myleus?
A Myleus surgiu na Universidade Federal de Minas Gerais em 2010. Foi fruto de uma tese de doutorado para o desenvolvimento de uma tecnologia de testes de DNA utilizada na identificação de espécies de origem animal em alimentos.

E como essa tecnologia pode ser aplicada?
Com essa tecnologia você consegue, por exemplo, saber se um bacalhau é um bacalhau mesmo ou se é uma fraude. Se o hambúrguer é mesmo de carne de vaca ou se tem carne de cavalo adicionada. Você testa a origem do alimento.

E essa é uma técnica original?
Essa tecnologia já existe em outros países, mas com técnicas diferentes. Algumas delas adaptamos e padronizamos em nosso laboratório, e outras nós mesmos desenvolvemos. Inclusive, já temos alguns pedidos de patente em andamento. Nós temos, por exemplo, um teste no qual conseguimos detectar e quantificar a presença de leite de vaca em muçarela de búfala, uma fraude comum no mercado.

O seu negócio é biotecnologia, uma área que precisa de muito investimento. É difícil atrair capital para esse tipo de empreendimento?
Não é muito fácil. Trata-se de uma área mais complexa. Os negócios que são fechados com esse setor levam mais tempo para amadurecer, isso porque o segmento tem características bastante peculiares. Primeiro que é necessário do empreendedor um investimento inicial mais robusto, afinal uma empresa desse tipo requer equipamentos sofisticados, muitas vezes importados. Segundo que são projetos que levam mais tempo para se concretizar. Eles envolvem testes, pesquisas, comprovações de produtos, etc. E terceiro que envolve um risco maior. A vantagem é que, justamente por ter alto risco, o retorno, quando vem, também é muito maior que em outras áreas.

Mas você chegou lá. Conseguiu investimentos do Primatec, um fundo destinado a apoiar companhias inovadoras. Como foi o processo de captação desses recursos? 
O caminho foi meio longo. Começou em 2013, quando vencemos uma seleção para receber investimentos da Fundepar, que é uma fundação gestora de recursos e projetos da UFMG. Foi com esses recursos que construímos o laboratório e infraestrutura própria. Em 2015, fomos selecionados para participar do Corporate Venture da Apex-Brasil. Fizemos um dos pitches (apresentações para investidores) no evento e ficamos entre as cinco empresas escolhidas. Foi aí que um dos sócios da Primatec, um fundo de investimento em participações destinado a investir em companhias inovadoras, me viu apresentando nosso projeto. A partir daí começamos a conversar. Em agosto de 2016, finalizamos as tratativas e nos tornamos a primeira empresa a receber investimentos desse fundo.

Conseguir um investidor foi apenas uma das barreiras. Você ainda conseguiu transpor o obstáculo de ser uma mulher empreendedora.
É verdade. A questão da mulher no mercado de trabalho e no mundo dos negócios é muito delicada. Tem toda uma questão histórica que nos coloca em uma posição de desvantagem em comparação aos homens. Isso se observa com mais clareza, por exemplo, no universo corporativo, onde as mesas de reuniões são formadas, basicamente, por homens. O ambiente é totalmente masculino, e nesse momento é clara a cobrança. Você tem sempre que fazer muito mais e melhor para ser reconhecida e respeitada. É claro que isso vem mudando e iniciativas vem sendo tomadas para reverter esse quadro como, por exemplo, as ações que a Apex-Brasil realiza para apoiar as mulheres em áreas como a de exportação. Mas ainda temos que avançar muito nessa questão.

Por falar em Apex-Brasil, como você avalia a participação da Agência nesse processo de atração de investimento da empresa?
Acho que foi e continua sendo um trabalho fundamental. A Agência tem uma atuação que poucas pessoas conhecem a fundo. Uma das facetas mais importantes é que a Apex-Brasil está apoiando projetos inovadores e de tecnologia, porque é um caminho interessante e próspero. Esse equilíbrio entre o apoio a setores tradicionais da economia e os de inovação tem gerado bons frutos e tem tudo para gerar muito mais.

E o mercado externo? A Myleus está pensando em exportar?
Hoje estamos olhando para o mercado externo a partir das soluções que nós oferecemos. As regulamentações de alimentos em outros países são mais exigentes que no Brasil. Nós podemos, por exemplo, ajudar os compradores de produtos brasileiros com soluções de monitoramento. Dessa maneira, estaremos valorizando o produto nacional, facilitando sua entrada no mercado externo.

A parceria com a Apex-Brasil segue nessa nova etapa da Myleus? 
Sim, claro! A Apex-Brasil agora está nos ajudando a entender a melhor maneira de nos colocar no mercado. Se só aqui no Brasil, ou se já podemos internacionalizar nossos serviços. A Agência presta uma assessoria importante nesse momento em que estamos buscando novos caminhos. Está sendo fundamental para o desenvolvimento da empresa.

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