Com escritórios no Brasil e em Portugal, Coreia do Sul e Tanzânia, a empresa brasileira Biolotus, fundada em 2001, foi uma das 31 participantes do Brasil Tecnológico 2018, entre os dias 20 e 25 de maio no México. No evento, foram realizadas rodadas de negócios com potenciais compradores mexicanos, previamente agendadas pela Apex-Brasil, na Cidade do México. O evento também abriu espaço para outras atividades em Monterrey, onde as empresas brasileiras participaram de reuniões, visitaram potenciais compradores que não puderam ir às rodadas de negócios e visitaram um armazém logístico de uma empresa mexicana que pode funcionar como entreposto aduaneiro para produtos brasileiros.

A programação contemplou tudo o que queria o CEO da Biolotus, João Transmontano. Em entrevista ao Blog da Apex-Brasil, ele agradeceu o apoio da Agência no processo de internacionalização da empresa, falou sobre as atividades desenvolvidas e demonstrou boas expectativas em negociar com instituições e empresas mexicanas. A Biolotus tem um departamento de saúde pública, cujo foco primário, de acordo com o CEO da empresa, é o controle de doenças transmitidas por mosquitos, como Dengue, Zika, Chikungunya, Malária, Febre Amarela, alvejando as larvas de Aedes aegypti, entre outros causadores de doenças.

E foi exatamente um inseticida biodegradável e não tóxico para outras espécies – à exceção dos mosquitos – que a Biolotus levou para o evento em solo mexicano. As larvas, conta o executivo, são eliminadas com a aplicação do inseticida na água por um período de quatro a seis horas. A empresa sediada no Rio de Janeiro também tem projetos e produtos nas áreas de diálise, câncer, Alzheimer, Mal de Parkinson, asma, deficiências respiratórias crônicas e linhas de feridas (queimados e pés diabéticos). “No Brasil, nosso compromisso é a produção de medicamentos biológicos, para suprir as demandas do Sistema Único de Saúde (SUS), garantindo acesso da população aos medicamentos”, explicou João Transmontano ao Blog da Apex-Brasil. Confira a entrevista, a seguir:

Qual a história da Biolotus?

A startup foi fundada em janeiro de 2001, com um modelo que privilegiava essencialmente o registro da escala internacional. Ou seja, toda a produção e os produtos eram desenvolvidos por empresas que não tinham capacidade de atuação internacional. Nós desenvolvíamos a documentação dessas empresas, tornando-as aptas para as negociações internacionais. Imediatamente começaram a aparecer registros no mundo inteiro ao mesmo tempo. Nós não tínhamos um produto, mas pegávamos os produtos de outras empresas, modificávamos e melhorávamos usando as nossas marcas e entrando no mercado. Isso foi na primeira década da empresa.

E quanto começou a mudança de trajetória?

Durante esse período, juntamos vários produtos de biotecnologia, que eram considerados difíceis para a indústria tradicional. Como tínhamos muita competência técnica das pessoas envolvidas na equipe, sabíamos gerir esse trabalho e estávamos à vontade no mercado, sim. Tínhamos vários projetos nessa época. Em 2004, lançamos o Plano 20/20, para traçar os resultados que queríamos alcançar até 2020. E previmos, no Plano, que, a partir de 2008, 2009, iríamos começar a fazer inovação. Era bonito, sabíamos que não seria fácil, mas, também, não sabíamos que seria tão difícil fazer inovação no Brasil.

E, hoje, qual o atual estágio da Biolotus?

Fomos evoluindo e hoje produzimos 50% do que vendemos. Hoje, os produtos são produzidos em vários países da Ásia e Europa. Na Ásia, auditamos projetos na área de biotecnologia. Tivemos que gerir plantas na China, em 2002, por durante três meses, para adequá-las às normas de boas práticas de fabrico requeridas no Ocidente. Foi a primeira planta que a Anvisa inspecionou fora do Brasil, na área de biotecnologia.

Quais as áreas de atuação da empresa?

No momento, os nossos projetos de Pesquisa & Desenvolvimento incluem antifúngico contra a aspergilose (administração pulmonar), droga em adesivo para tratar demências (genérico), novas enzimas terapêuticas, anticorpos monoclonais (biossimilares) e proteínas recombinantes humanas (biossimilares). Instrumentos diagnósticos baseados em tecnologias inovadoras de engenharia genética. Fomos evoluindo e começamos a desenvolver projetos de pesquisa em várias áreas. Como as hemorragias potencialmente fatais, com produto de uso militar; linha de tratamento de feridas, para queimados; e processos para evitar amputações. Também atuamos na produção de produtos tecnológicos e anticorpos, em parceria com uma empresa da Suécia. Em 2015, fizemos um projeto com o Instituto Vital Brasil, no valor de US$ 25 milhões, utilizando reatores single use, desenvolvidos por empresas da Polônia e da Suíça. Em 2017, começamos negociações com um grupo da Bélgica, com produção de anticorpos e enzimas para doenças raras, ao custo de US$ 3 milhões, um projeto único no mundo e em que viramos parceiros.

Vocês também têm atuação na área de medicina tropical?

Desenvolvemos outras áreas de pesquisa para controle de mosquitos, na medicina tropical, para fazer o primeiro inseticida biodegradável e não tóxico para outras espécies, com 100% das ações nas larvas dos mosquitos. Fizemos contato com grupos dos Estados Unidos, Malásia, Vietnã, Nova Zelândia, Japão e Myanmar e estamos desenvolvendo essa tecnologia na Europa para depois trazer ao Brasil. Esse mecanismo de ação nos mosquitos precisa ser observado. A fêmea do Aedes aegypti vive 30 dias. Se ela não for controlada, em 60 dias gera 92 milhões de mosquitos adultos. É uma escala explosiva. Toda a vida do mosquito é dedicada a sobreviver e gerar ovos para a reprodução.

O que vocês fazem para combater o problema?

Nós identificamos o problema e criamos um inseticida em pó, com tratamento específico, que pode ser formigado. Daí, eliminamos as larvas aplicando o inseticida na água por um período de quatro a seis horas. Ele não é tóxico para outras espécies e é biodegradável. Um grama desse produto é suficiente para uma casa com jardim por um mês. É extremamente eficaz. Com 200 gramas dá para cuidar por um hectare por mês. Todos os inseticidas de formigação são tóxicos porque utilizam óleo diesel. O nosso é formigado em água, não é tóxico.

Então, esse é o produto que a Biolotus trouxe para o evento Brasil Tecnológico, no México? E é o que a empresa está trabalhando internacionalmente?

Sim, já temos uma aprovação no México e ele está sendo submetido na Guatemala, Trinidad e Tobago e no Brasil. A base produtiva seria o Brasil para a América. O nível de demanda é bastante grande. Por isso, talvez tenhamos que criar uma segunda unidade. Estamos desenvolvendo essa tecnologia de ponta e queremos aumentar essa produtividade, com o Instituto Vital Brasil.

Além desse produto que combate o mosquito vocês trabalham em quais áreas?

Diálise, câncer, Alzheimer, Mal de Parkinson, asma, deficiências respiratórias crônicas e linhas de feridas (queimados e pés diabéticos). Somos a última linha de defesa contra a amputação. Quando você pensa que vai amputar, a gente consegue, muitas vezes, reverter isso.

E vocês trabalham a exportação para vários países desses produtos?

Uns mais, outros menos. Na área de Parkinson e Alzheimer estamos iniciando agora. Em relação às deficiências respiratórias crônicas nós já exportamos know-how para o Caribe. Na linha de feridas, já atuamos na África e na América, em países como Peru, El Salvador, Trinidad e Tobago, Jamaica, Guatemala e Barbados. E vamos tentar introduzir nossos produtos no México, que é um grande mercado para diabetes. Já as linhas de câncer e de diálise estão espalhadas por vários países.

Tudo faz parte do plano 20/20 que vocês criaram? Ou já conseguiram antecipar algumas metas do plano?

Está mais ou menos na linha, mas a dimensão está se tornando muito grande. É que tivemos muitas inovações radicais. A indústria de biotecnologia tem três barreiras: o custo da planta, a operação da planta 24 horas por dia e os estudos clínicos. Trabalhamos para reduzir os custos da planta e os custos operacionais. O inseticida biodegradável é inovador. Trabalhamos para combater as pestes agrícolas, em um mercado que movimenta US$ 80 bilhões de dólares. Por exemplo, estamos trabalhando com parceiros no sul da Europa, na identificação das espécies de insetos mais impactantes para a economia da região. Vamos acompanhar os insetos, retirar os ovários para aplicar os estudos e gerar um biopesticida específico altamente eficaz e biodegradável. Estamos, talvez, em um momento de quebra de paradigmas no que se trata de pesticida biodegradável. E em conversações com a Embrapa para aplicar o projeto em plantações de café, fumo, soja,  milho, algodão.

Vocês têm uma grande capilaridade e trabalham muito em parceria com várias instituições. A Biolotus é uma empresa brasileira?

A Biolotus foi fundada no Brasil, o capital é brasileiro. Somos uma microempresa, nossa produção é terceirizada. O know-how é sempre na documentação, na área de desenvolvimento. Somos uma indústria de papel, 98% do trabalho é gerar papel. Tudo é feito em parceria, temos dez parceiros na área de pesquisa, desde empresas privadas a públicas, principalmente universidades. Com o Instituto Vital Brasil, o nosso acordo é mais de cooperação. Já com o laboratório da Força Aérea Brasileira, a parceria é mais ativa, mas ainda não finalizamos a documentação. É uma parceria relacionada ao desenvolvimento de um produto para hemorragias fatais. Feridas de tiro, perfuração de balas, explosão. A ideia é interromper uma hemorragia com corte completo da artéria em cinco segundos.

E no exterior?

No exterior, nós temos cooperado com institutos da Áustria, França, Suíça, Portugal e Espanha e com a Escola Politécnica de Milão, na Itália, na área de pesticida biodegradável.

 

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