“Diálogo Brasil-China: relações econômico-comerciais na ‘nova era’”, é o workshop que a Apex-Brasil realiza nesta quinta-feira, 30 de novembro, em São Paulo. A analista da área de Estratégia de Negócios da Apex-Brasil Thais Moretz participará do encontro, que terá as participações do pesquisador Albert Keidel, do Atlantic Council e professor da George Washington University; e Daniel Poon, economista da UNCTAD. Keidel é especialista em sistema financeiro chinês. No período da tarde, no mesmo dia, será realizado o webinar “One Belt One Road: is there room for Brazil in this project?”, que debaterá as possibilidades de o Brasil integrar os planos de investimentos em infraestrutura, logística e conectividade global que a China fará nos próximos anos. 

Thais Moretz viveu dois anos na China, período em que se licenciou do trabalho na sede da Apex-Brasil, em Brasília, para cursar um mestrado em Xangai. Em seus estudos, ela defendeu a tese sobre a efetividade do sistema regulatório chinês para controlar a indústria de ferro e aço. Nesse tempo, viveu a rotina do povo chinês, frequentando o comércio local, aprendendo mandarim e trazendo informações valiosas para quem quer exportar. 

Na conversa com o Blog da Apex-Brasil, Thais fala sobre hábitos de consumo dos chineses, as particularidades desse mercado e dá dicas aos empresários que têm ou pretendem abrir negócios na China. Confira: 

Qual foi o tema do seu mestrado?
Meu mestrado foi na área de política econômica. Estudei sobre a interferência do governo chinês no funcionamento do mercado, relação em que na China têm características muito próprias. O governo lá é muito bom em identificar o problema e planejar as soluções, mas enfrenta dificuldades na hora de implementar as políticas porque o território do país é muito grande e há diversos conflitos de interesse, como, por exemplo, entre o governo local e o central, e entre os pequenos produtores e as grandes estatais. 

Queria estudar mais a política econômica chinesa e essas contradições que o país enfrenta. Escolhi o setor de ferro e aço porque é extremamente estratégico. É a base para todos os investimentos em infraestrutura, rodovias, pontes, edifícios, etc. E hoje a China tem um excesso de capacidade produtiva nesse setor. Milhares de empresas siderúrgicas foram abertas na China, animadas com o crescimento. Agora, eles não consegue absorver essa produção, nem o mundo. E por mais que o governo chinês tente reduzir a oferta, não consegue, pois o governo local não quer forçar o fechamento dessas empresas e gerar desemprego em sua localidade. As promoções dentro do Partido Comunista dependem muito do bom desempenho econômico. 

Vale lembrar também que o Brasil exporta muito minério para a China. Queremos diversificar as exportações, mas também precisamos manter as exportações dos setores fortes. Ao entender como o sistema regulatório chinês funciona em um setor específico, também consigo aplicar o conhecimento em outros setores. 

E como foi sua vivência acadêmica na China?
Eu conversei muito, eu aprendi muito. Hoje eu tenho muito mais segurança para falar sobre o que dá certo e o que não dá. Meu mestrado em si foi sobre o sistema político econômico chinês, então eu tive professores chineses, além de alguns americanos e uma turma super diversa de gente do mundo inteiro: Paquistão, Índia, Rússia, Itália, EUA. Foi uma troca de experiência de vida, uma troca intelectual muito grande. O grupo de estudo via um problema sobre diferentes ângulos. Foi um crescimento enorme. Eu estudei mandarim tanto no mestrado quanto com um professor do consulado e hoje consigo me comunicar, ler e escrever, mas ainda não fluentemente, por isso continuo fazendo aulas de mandarim, aqui no Brasil.

O que essa experiência mudou no trabalho que você executa na Apex-Brasil?
Hoje eu tenho muito mais segurança para passar uma informação. Quando uma entidade setorial ou uma empresa brasileira tem alguma pergunta específica sobre o mercado, os hábitos de consumo e os preços, eu tenho mais dados.

Eu sei o que tem nas lojinhas. Eu frequentava muita lojinha pequenininha. Em Xangai mesmo, eu comia na rua, nessas barraquinhas em que o vendedor é totalmente nativo. Também frequentei os restaurantes mais caros, para ter as experiências do consumidor. Eu ia também nas redes de supermercados, grandes e pequenas. Eu sei hoje que os produtos alimentares da Rússia estão entrando com muita força, como por exemplo os chocolates e as bolachas. Também via muita manteiga da Nova Zelândia, da Austrália. Então, esses são alguns de nossos principais concorrentes lá.

E o que você percebeu nos consumidores?
Eles têm um paladar muito diferente e gostam mesmo dos produtos asiáticos. Na parte de alimentos e bebidas, preferem o chá verde, a carne de porco e o amendoim. Todos eles têm um modo de preparo e uma embalagem diferentes que estamos habituados. Ainda é muito difícil achar produtos brasileiros na China. Vejo, porém, que há espaço para emplacar uma série de mercadorias. A paçoca, por exemplo, tem tudo para dar certo.

É preciso estudar bem o mercado, os requisitos para rotulagem, embalagem etc. Eles provam novos sabores, mas, no geral, os produtos deles são mais suaves. Os chás, os cafés, os chocolates não são tão fortes nem tão doces.  Muitas empresas chinesas e asiáticas têm a confiança dos chineses. A moda também tem um estilo próprio. Eles gostam de roupa importada, mas que se adeque ao estilo deles. Os produtos japoneses e coreanos do segmento de cosméticos fazem muito sucesso.

Quais dicas você daria aos empresários?
Estudar, estudar e estudar. Fazer missões, conhecer o mercado. Só assim, será possível entender o funcionamento e os concorrentes. Estreitar os relacionamentos também é importante. Muitas portas se abrem na China pelo networking.  É preciso ponderar algumas afirmações e desmistificar a China. Frases do tipo “os chineses estão loucos para comprar importados”, “a China agora quer alimentação saudável”, “chinês velho não toma café, chinês jovem não toma chá”... tudo isso tem que ser relativizado e muito bem contextualizado para não ficar simplista ou encorajar e desencorajar negócios. 

Na parte de saúde por exemplo, a noção de saudável é diferente da nossa. Comida com gordura é saudável para eles. A onda fit, sem gordura trans etc, não é a prioridade na alimentação dos chineses.  A parte de saúde inclui, sim, maiores cuidados com exames médicos, check ups, consumo de frutas e outras coisas naturais, mas a noção de saudável deles é mesmo diferente da nossa. Inclui conhecer a procedência do produto, saber que vem de empresa confiável, que o leite não está adulterado, essas coisas. 

Em suma, não dá para colocar tudo em caixinhas e dizer que eles só gostam disso ou daquilo. Sem contar que as indústrias chinesas estão cada vez mais competitivas. Então nossos produtos têm que ser realmente bons para emplacar no mercado chinês. Os celulares chineses fazem muito sucesso. O celular mais vendido na China chama-se chama Oppo. Essa marca bateu o Iphone em vendas e, segundo técnicos, é equiparada ou até mesmo melhor que o iPhone em algumas funções. A expressão “negócio da China” é muito errada. As pessoas usam como se fosse aquele lucro fácil e na verdade não é. O negócio da China é complicado, envolve paciência, envolve estudo, dedicação.

Mais informações:

Assista ao webinar “One Belt One Road: is there room for Brazil in this project?”: https://www.youtube.com/watch?v=rgtUpVVyVBY&t=926s